A maternidade ainda é um tabu nas empresas?



O nascimento de um filho é um dos momentos mais importantes na história de uma pessoa. No meu caso, digo sem pensar duas vezes que foi “o” grande acontecimento na minha vida. Trazer um ser humano ao mundo é um sentimento indescritível e não consigo imaginar como seria a minha vida hoje sem os meus filhos Paulo e Lucca Zorin Gerin.


Felizmente, tive o apoio do meu parceiro, Marco Gerin, e uma ótima estrutura em casa e no trabalho para lidar com os desafios em conciliar a maternidade com a carreira de gestora. Entretanto, o meu exemplo está longe de ser o padrão no mercado de trabalho. Em texto publicado pelo Jornal O Globo, a jornalista Miriam Leitão trouxe uma informação cuja dimensão eu já imaginava, mas não sabia que seria tão surpreendente: a participação feminina nas empresas caiu para 45,8% no primeiro semestre de 2021, o menor nível desde os anos 90.


Os motivos para esse registro encontram-se sobretudo no fato de o setor de serviços ser onde mais há oportunidades de trabalho atualmente (70% do PIB nacional), ter sofrido uma queda de aproximadamente 8% no primeiro e segundo trimestre de 2020, o pior resultado desde 2012, segundo os dados do IBGE.


A revista Exame, em sua edição de outubro, realizou um levantamento sobre os 18 setores melhores avaliados no ano de 2021. Na matéria principal, a publicação mostrou que atividades paralisadas pelo distanciamento social, como os shoppings centers, hotéis e restaurantes perderam, respectivamente, 33% e 44%, do faturamento. A economia passou por um processo completo de inversão das tendências de consumo. E quando a situação aperta, e o corte de gastos é inevitável, e os mais vulneráveis são os primeiros a perder espaço.


Manter uma dupla jornada com o fechamento das creches e das escolas por tempo indeterminado é uma tarefa exaustiva a qualquer ser humano. Exige uma cansativa divisão de atenção e energia entre a residência e o ambiente de trabalho. Se incluirmos outros fatores, como a etnia, a cor da pele, a renda ou o sexo da pessoa, então falamos de m elemento ainda mais relevante para entender como a sociedade seleciona quem acessa as suas empresas: o racismo.


A conciliação das tarefas de fato atrapalha a produtividade e a entrega de demandas e a paciência para manter a colaboradora, tanto antes quanto depois da gravidez, ainda é algo que o mundo corporativo ainda tem dificuldade de mostrar empatia e paciência. Porém, vejo que são as licenças paternidades (sim, porque parece que finalmente estão entendendo a importância do pai ser engajado no nascimento e criação da criança), e as licenças estendidas estão sendo bastante faladas, principalmente aqui no Linkedin.


Fico feliz de ver essa evolução no debate no campo dos Direitos da Família, mas ainda resta um longo caminho para vermos uma diferença considerável, ainda mais com a economia brasileira na situação crítica em que se encontra atualmente. Por outro lado, existe uma que as empresas podem incorporar sem precisar de influências do governo: a inclusão do suporte completo à gestante como parte integral da cultura organizacional.


Enfatizamos bastante esse ponto na Zorzin, porque não enxergamos como as gestões horizontais, em que a palavra do líder é o começo e o fim na comunicação dos objetivos e metas de uma empresa, conseguem funcionar em uma sociedade que mudou muito nas últimas décadas.


Particularmente, gostamos muito de trabalhar com pessoas e de interagir com elas (independente do cargo). Assim, o processo fica natural e não necessita de algum tipo de preparo meu ou de outros dos nossos diretores, como o meu irmão, Marcel Zorzin.


As nossas colaboradoras sentem essa honestidade, tanto que elas não têm medo de nos pedir uma dispensa para se ausentar, levar o(s) filho(s) ou permissão para levá-lo ao trabalho. E isso me tranquiliza, afinal, quanto mais próximas elas estiverem perto de nós, mais tempo estarão em nossa proteção e segurança.


O Fórum Brasileiro de Segurança Pública, na terceira edição da pesquisa “Visível e invisível: a vitimização das mulheres no Brasil”, revelou que, no isolamento social, uma em cada quatro das brasileiras acima de 16 anos afirmaram sofrer de alguma forma de agressão, sendo 73% dos agressores pessoas íntimas das vítimas. Por estarem mais em casa do que na rua, a pandemia deixou as mulheres mais próximas dos seus violentadores, logo, vulneráveis a abusos físicos e psicológicos.


A urgência em falar sobre o tema, somado à minha inclinação a levar a sério o combate à violência contra a mulher, motivaram-me a criar um projeto interno chamado de “Entre Elas” para romper a barreira do medo e incentivar as mulheres da Zorzin a falarem sobre casos de agressão doméstica (seja na casa delas ou na de alguma conhecida), torná-las mais confiantes e empoderadas. Falei mais a respeito da iniciativa no meu artigo publicado em julho deste ano, e com o Dia Nacional do Combate à Violência Doméstica se aproximando, vejo que não dá para ignorarmos a oportunidade de falarmos sobre o respeito e a igualdade entre os sexos.


E abordá-lo ao falarmos sobre a maternidade nas empresas é uma ótima forma de mostrarmos como de fato a questão deve ser tratada. Quando pensamos no fim de preconceitos, não adianta apenas olhar para uma questão específica (como a redução do feminicídio, apesar de isso ser um indicador essencial), mas de ir a fundo. Precisamos romper com a maneira em que o afetado pelo estigma é visto pela sociedade, assim como o seu papel nela.


Maior participação feminina em cargos de liderança, principalmente no meio corporativo, é um passo nesse objetivo, porque significa transmitir para as pessoas como mulheres podem ser bem sucedidas, independentes e capazes do que elas desejarem. Cada segmento tem um papel importante em tornar isso possível e mudar a associação entre a gravidez e a inaptidão ao trabalho.


Nos últimos anos, o transporte rodoviário de cargas tem realizado uma verdadeira revolução na inclusão de pautas sobre o caminho das mulheres no setor. Ainda temos muito caminho a percorrer, mas, felizmente, temos gestoras incríveis sem o receio de expor as suas opiniões e inspirar as próximas gerações de jovens empreendedoras.


Gislaine Zorzin, Diretora Administrativa da Zorzin Logística

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