A situação do transporte rodoviário de cargas após o aumento do preço dos combustíveis



O aumento de custos no transporte rodoviário aconteceu de forma generalizada, porém com ênfase nas despesas com o óleo diesel. Segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a alta acumulada para o óleo diesel no ano, até agosto de 2021, foi de 28,02%. Mudanças no mercado de produtos agrícolas na região Sul somaram-se às elevações nos preços dos combustíveis, dificultando a sobrevivência do setor em longo prazo.


A distribuição dos custos divide-se em despesas com insumos e elementos operacionais. Nossos gastos com os combustíveis representam 43% do custo em relação ao faturamento; a folha de pagamento, 17%; os financiamentos, 15%; a manutenção, 12%; os pedágios, 11%; óleos lubrificantes, 9%; e pneus, 3%. Este último, por sinal, segundo o Sindicato das Empresas de Transporte de Carga de São Paulo, aumentou em mais de 10% só no primeiro trimestre de 2021.


Também se inclui nas compras mensais o pagamento de impostos, a compra do Arla 32 (agente químico redutor de emissão de poluentes) e o provisionamento da folha de pagamento dos salários e dos encargos sociais. Junto do aumento de aproximadamente 54% do óleo diesel entre o terceiro semestre de 2020 e o de 2021, esses fatores apertam o orçamento de todas as transportadoras e forçam o crescimento do frete. Entretanto, o Índice Nacional de Custos Transporte para cargas de lotação (INTC-L) da Associação Nacional de Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), divulgado neste ano, revelou uma defasagem de 18,7% no valor repassado às empresas contratantes.


Dessa forma, existe um paradigma entre o momento vivido pelo agronegócio e a situação atual do transporte rodoviário de cargas no Brasil. Se, por um lado, o IBGE prevê uma safra recorde de mais de 270 milhões de toneladas de grãos, cereais e leguminosas em 2022, por outro, só aqui em Cascavel, o preço médio do diesel saiu de R$ 3,53 no primeiro trimestre de 2021 para R$ 4,50 no terceiro semestre do mesmo ano. Devido à elevação do dólar, à estabilização climática, ao aumento do consumo e ao crescimento das exportações, estamos em condições perfeitas para retornarmos a nossa economia após a pandemia. Entretanto, é pouco provável que aproveitemos essas oportunidades.


Contudo, mesmo se o potencial do agronegócio seja valorizado e as transportadoras aumentem as suas operações nesse nicho de mercado, outro desafio precisará ser solucionado. Dados que coletamos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA) da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" da Universidade de São Paulo (ESALQ-USP) mostraram um crescimento de 100% no preço da soja de 2020 a 2021 no Paraná. Milho e trigo, por sua vez, tiveram, respectivamente, 50% e 60% de aumento.


Você deve estar pensando: mas, então isso significa um maior retorno à indústria e às transportadoras. Não é bem assim. O valor da mercadoria não se reflete, necessariamente, em ganhos para o segmento. Se fizermos uma conta simples, dividindo o custo do frete pelo valor do produto, desde o início de 2020 até outubro deste ano, veremos uma queda de cerca de mais de 3% na margem de lucro das transportadoras. Apesar de a lógica apontar para ganhos aos agricultores e às transportadoras, não esperamos uma grande margem de lucro nos próximos anos por causa das despesas com tudo o que envolve o processo de logística, entrega e distribuição da carga.


Quanto maior o valor da mercadoria, maior será o risco de roubos, logo, maiores serão os gastos com o gerenciamento de risco e com o investimento em estratégias para evitar furtos nas estradas. Enquanto não houver mudanças significativas na política econômica, sobretudo na forma como o Estado administra a política de preços e de desenvolvimento do mercado de combustíveis, trabalharemos na base da incerteza, tentando encontrar soluções inteligentes para a elevação das despesas, cujas razões de existir não são nossas.


Uma das alternativas que gosto de utilizar para resolver esse impasse é o uso das bases compartilhadas de abastecimento. Após realizarmos um extenso mapeamento de rotas e criação de parcerias, criamos um sistema de consórcios e de localização de rotas para distribuir os gastos e obter descontos na compra de gasolina nos postos.


Por enquanto, não há como saber o limite da criatividade de nós empresários, contudo, se mantido o ritmo de crescimentos dos preços, restará pouco espaço para gerenciarmos com o que temos em mãos. Tanto aos empreendedores quanto aos consumidores, o que sobra é acompanhar as próximas notícias e cobrar politicamente mudanças significativas.


Diego Nazari, Diretor de desenvolvimento de negócios

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