A escolha de um projeto para “elas”


Iniciar um projeto voltado exclusivamente para as mulheres dentro de um setor tradicionalmente masculino não foi uma decisão fácil. Como em tudo na vida, temos que estar preparados para receber críticas, mas também é verdade que só as recebe quem se propõe a fazer algo. Por isso, mesmo diante das incertezas de como o projeto seria visto, decidimos seguir adiante, crentes de que o simples fato de começar tratar do tema de forma sistemática dentro dos canais de comunicação do TRC seria um importante passo a ser dado para valorização das mulheres que já atuam no transporte rodoviário de cargas, assim como para atraí-las para nosso setor.

Sou neta e filha de ex-caminhoneiros que se tornaram empresários e que conheceram a fundo todos os desafios das estradas, assumindo riscos diários que a atividade lhes impunha, mas que tiveram a coragem e determinação de seguir em frente e construir uma empresa de transporte. Aliás meu pai chegou a ser ajudante do meu avô antes de começar a dirigir seu próprio caminhão. Trabalharam desde muito cedo e naquela época sim, era uma atividade essencialmente exercida pelos homens, com veículos “pesados” no sentido estrito da palavra, sem EPI, sem cinto de segurança, sem horário, mas com muita garra, força física, profissionalismo e responsabilidade. Às mulheres, cabia à responsabilidade e tarefas de casa, entretanto, muitas delas, há que se reconhecer, como minha própria mãe por exemplo, ajudaram sim nas tarefas administrativas da empresa logo no início, na década de 70, dando apoio necessário a família empreendedora.

Fato é que, de forma regular, formalizada e profissionalizada só começamos a ver mulheres nas empresas de transporte por volta da década de 90, segundo alguns estudos, assumindo funções na área administrativa. Raras exceções deram espaço e oportunidades para elas em funções operacionais, como a de motorista profissional.

Ainda, falando em entidades de classe, na qual tenho participação desde 2004, a presença das mulheres, principalmente em cargos de liderança é muito pequena, situação da qual temos procurado reverter através de diversas iniciativas da COMJOVEM nos núcleos regionais, onde a contribuição da empresária e executiva tem crescido a cada dia.

Ou seja, o espaço e as oportunidades a serem ocupadas pelas mulheres dentro do setor são enormes e creio que hoje, ninguém mais dúvida da capacidade e preparo delas para tal. Razão pela qual a decisão de falar do tema não poderia ser diferente do que simplesmente um sim.

Comecei na empresa aos 16 anos e sempre convivi entre os homens, sempre me posicionei, me preparei e me habilitei para ocupar funções a qual me sentia preparada e a qual tive oportunidade. Idem nas entidades de classe, comecei a participar e de modo muito natural, me senti a vontade para dar sugestões, colaborações e participar ativamente dos temas relacionados ao dia a dia das mesmas, o que me credenciaram a ocupar algumas funções de coordenação de comissões de jovens, na Diretoria do Sindicato, Federação e Confederação, até chegar onde estou hoje, através do processo seletivo que participei no final de 2019.

Nunca me senti tolhida em nenhum destes ambientes, mas muitas vezes me sentia sozinha e isto me fez enxergar e tomar a decisão de levar a frente um projeto voltado para as mulheres no TRC, pois acredito que nossa presença é importante, é relevante e fará sim muita diferença no planejamento e estratégias a serem tomadas para o futuro do transporte. Sei da nossa capacidade, da nossa força e da nossa habilidade agregadora, que fazem uma diferença enorme em qualquer ambiente corporativo.

Percebo que a decisão foi acertada, a medida em que vejo diversos anúncios recentes de vagas para função de motoristas nas mídias sociais, expressando claramente que são vagas para homens e mulheres, isso é simplesmente sensacional.

E lançar este projeto num ambiente receptivo, acolhedor, inovador e da magnitude do SETCESP só engrandeceu tudo o que estava planejado. Só tenho a agradecer aqueles que compraram a ideia comigo desde o início, como o grupo GMI na pessoa do Rodrigo Bernardino, a Camila Florêncio responsável pela comunicação da entidade e o Conselho de Administração do SETCESP, através do Presidente Tayguara Helou.

Vamos sim falar deste tema, cada dia mais, criando uma corrente positiva e tornando nosso setor atrativo para as mulheres, onde elas possam se sentir acolhidas, respeitadas, valorizadas e reconhecidas profissionalmente. Isso que eu espero. Acesse www.vezevoz.org e participe conosco.


Ana Jarrouge, Presidente Executiva da SETCESP

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